São onze da noite e você está no celular, lendo uma lista de sinais de testosterona baixa. Cansaço, pouca vontade de sair, desejo mais fraco. Você se reconhece em quase tudo e fica sem saber se é o hormônio ou a rotina puxada dos últimos meses.
Os sintomas mais ligados à testosterona baixa são sexuais: menos desejo, menos ereções ao acordar e dificuldade de ereção. Cansaço, desânimo e menos disposição física também aparecem, mas têm muitas outras causas. Por isso o diagnóstico exige sintomas somados a duas dosagens de testosterona total, colhidas pela manhã, em dias diferentes.
Quais sintomas fazem pensar em testosterona baixa?
A deficiência de testosterona, que os médicos chamam de hipogonadismo, costuma chegar devagar. Nenhum sintoma a denuncia sozinho. A diretriz da Associação Europeia de Urologia (EAU) organiza os sinais em grupos:
O grupo que mais pesa é o primeiro. Um estudo europeu chamado EMAS avaliou 3.369 homens de 40 a 79 anos e cruzou os sintomas relatados com a dosagem do hormônio. Vários sintomas tinham alguma relação com a testosterona, mas só os três sexuais (ereção matinal fraca, desejo baixo e disfunção erétil) formaram um conjunto claramente ligado à queda. E quanto mais sintomas sexuais o homem tinha, menor tendia a ser o nível.
A própria diretriz faz um aviso: esses sintomas não são exclusivos do hipogonadismo e precisam ser lidos dentro do quadro clínico completo. Cansaço e desânimo têm dezenas de explicações possíveis, e a testosterona é só uma delas. Se o que mais mudou foi o desejo, leia também sobre falta de libido masculina e o que pode estar por trás.
Por que só o sintoma não fecha o diagnóstico?
Os questionários que circulam na internet têm um problema conhecido. A diretriz europeia recomenda não usá-los como triagem, porque têm baixa especificidade: apontam possível deficiência em muitos homens que não a têm. Eles servem, no máximo, para organizar o que você sente antes da consulta.
Pelo mesmo motivo, as diretrizes não recomendam dosar testosterona em todo mundo. A europeia orienta investigar apenas homens com sintomas, e o posicionamento conjunto da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da ABEMSS recomenda contra o rastreamento de rotina na população geral.
E por que o exame sozinho também não basta?
Porque muita gente com valor baixo no papel está bem. Em um estudo com 1.475 homens de 30 a 79 anos em Boston, cerca de 24% tinham testosterona total abaixo do corte usado pelos pesquisadores. Quando se exigiram também sintomas, a deficiência caiu para 5,6%. Entre os homens de 50 anos ou mais com testosterona baixa, perto de metade não tinha sintoma nenhum.
Há também a variação do próprio hormônio. A testosterona é mais alta pela manhã e cai ao longo do dia. Doenças agudas mexem no resultado, a ponto de a diretriz europeia pedir que a dosagem seja evitada nesses períodos. Um exame feito às quatro da tarde, na semana de uma gripe forte, pode assustar sem motivo.
A diretriz da Endocrine Society resume o critério: diagnóstico só em homens com sintomas e sinais compatíveis e testosterona baixa de forma inequívoca e consistente.
Como é feito o exame de testosterona?
A SBEM descreve o diagnóstico como a presença de sintomas e sinais específicos junto da confirmação laboratorial, "por meio de dosagens matinais de testosterona total realizadas em duas ocasiões distintas". As diretrizes americana (AUA) e europeia dizem o mesmo, e a europeia detalha o horário.
- Conversa sobre os sintomas O médico pergunta o que mudou, há quanto tempo, e revisa seus remédios e doenças.
- Primeira dosagem Testosterona total colhida pela manhã, entre 7h e 10h, em jejum.
- Segunda dosagem Repetida em outro dia, nas mesmas condições.
- Exames complementares Quando indicados, para descobrir de onde vem a queda.
Os valores de corte variam entre diretrizes e laboratórios. Quem interpreta o resultado, junto com os sintomas, é o médico.
Quais exames entram no perfil hormonal masculino?
O pedido depende do seu caso, mas estes são os exames que as diretrizes citam com mais frequência:
- Testosterona total. O exame central, sempre em duas ocasiões.
- SHBG e testosterona livre calculada. A SHBG é a proteína que transporta a testosterona no sangue. Esses exames entram quando o valor total fica perto do limite ou quando há condições que alteram a SHBG, como obesidade e envelhecimento.
- LH e FSH. São os hormônios com que o cérebro comanda os testículos. Ajudam a saber se a origem do problema está nos testículos ou na hipófise.
- Prolactina. Pedida quando a testosterona vem baixa e o LH vem baixo ou normal-baixo, para investigar a hipófise.
- Hemograma e PSA. Entram antes de qualquer tratamento com testosterona. A diretriz americana pede hemoglobina e hematócrito e, acima dos 40 anos, o PSA.
Levar os exames antigos ajuda a comparar. Veja como organizar seus exames antes da consulta.
O que pode baixar a testosterona?
A queda pode começar nos testículos, no comando do cérebro ou, com mais frequência, em condições de saúde que afetam esse circuito todo.
- Peso e metabolismo. Segundo a diretriz europeia, obesidade e outras doenças respondem pela maior parte dos casos de hipogonadismo funcional, aquele sem lesão nas glândulas.
- Doenças crônicas. Doença cardiovascular, doença pulmonar obstrutiva crônica, doença renal e câncer aparecem com frequência associadas.
- Medicamentos e substâncias. Anabolizantes e testosterona usados sem indicação, opioides, corticoides e álcool em excesso.
- Testículos e hipófise. Uma parcela menor, com causas como síndrome de Klinefelter, tumores da hipófise, excesso de prolactina, trauma, cirurgia ou radioterapia nos testículos.
- Idade. A testosterona cai aos poucos com os anos. A SBEM lembra que essa queda, sozinha, não é indicação de tratamento. Explicamos o tema em andropausa: o que a medicina diz sobre o termo.
Quando a causa é o peso ou outra doença, cuidar dela vem primeiro e pode ajudar a melhorar os níveis, em geral de forma modesta, segundo a diretriz europeia.
Quando vale procurar um médico?
Se o desejo caiu, as ereções ao acordar ficaram raras ou a ereção ficou mais difícil, e isso se arrasta por semanas, vale uma consulta. O mesmo se você já usou anabolizantes e quer entender como está. O endocrinologista e o urologista são os especialistas que costumam conduzir essa investigação.
Uma coisa não entra na conta: começar hormônio por conta própria. A Resolução nº 2.333/2023 do Conselho Federal de Medicina veda o uso de testosterona sem comprovação diagnóstica da deficiência. Se o diagnóstico for confirmado, o que vem depois está em reposição hormonal masculina: o que é e para quem é indicada e na página sobre deficiência de testosterona e reposição hormonal.
Na Uromen
Você pode começar pela avaliação online, contando seus sintomas no seu ritmo, ou agendar uma consulta por vídeo. O profissional que conduz a consulta revisa seus exames, pede os que faltarem e decide com você os próximos passos. Qualquer indicação de tratamento é dele, depois de conhecer o seu caso. Outras respostas estão em dúvidas frequentes.
Este texto é informativo e não substitui avaliação médica individual.
Perguntas frequentes
Quais são os sintomas de testosterona baixa?
Os mais característicos são sexuais: menos desejo, menos ereções ao acordar e dificuldade de ereção. Cansaço, desânimo e menos disposição física também podem aparecer, mas não são exclusivos da testosterona baixa.
Um exame de testosterona basta para o diagnóstico?
Não. As diretrizes pedem pelo menos duas dosagens de testosterona total, colhidas pela manhã e em jejum, em dias diferentes, somadas a sintomas compatíveis.
Qual o horário certo para o exame de testosterona?
Pela manhã, entre 7h e 10h, e em jejum, segundo a diretriz europeia. A testosterona é mais alta nesse período, e a dosagem precisa ser repetida em outro dia.
Testosterona baixa tem cura?
Depende da causa. Quando a queda está ligada a excesso de peso ou a outras doenças, tratar essas condições pode ajudar a melhorar os níveis. Quando a causa está nos testículos ou na hipófise, o cuidado costuma ser de longo prazo.
Qual médico procurar para investigar testosterona baixa?
O endocrinologista ou o urologista. As sociedades brasileiras das duas especialidades publicaram em 2026, com a ABEMSS, um posicionamento conjunto sobre o hipogonadismo masculino.
Fontes
- Salonia A, Minhas S, Boeri L et al. EAU Guidelines on Sexual and Reproductive Health. Capítulo 3: Male hypogonadism. EAU Guidelines Office, 2026
- Hohl A, Lopes L, Ronsoni MF et al. Care of patients with male hypogonadism: a joint position statement from SBEM, SBU and ABEMSS. Int Braz J Urol, 2026 (PubMed 41678706)
- Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. SBEM reforça que reposição de testosterona deve seguir critérios científicos. SBEM, 2026
- Mulhall JP et al. Evaluation and Management of Testosterone Deficiency: AUA Guideline. J Urol, 2018, validade confirmada em 2024 (PubMed 29601923)
- Bhasin S et al. Testosterone Therapy in Men With Hypogonadism: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab, 2018 (PubMed 29562364)
- Wu FC et al. Identification of late-onset hypogonadism in middle-aged and elderly men. N Engl J Med, 2010 (PubMed 20554979)
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